Tratamento experimental usa estímulo magnético para tratar dor crônica

Matéria publicada no Jornal Agora - visualizar aqui

Para aliviar dores crônicas que não melhoram com remédios, o Hospital das Clínicas de São Paulo está testando um tratamento com estimulação magnética.

Uma bobina que gera um campo eletromagnético é apoiada na cabeça do paciente. O aparelho estimula áreas do cérebro ligadas à dor e à liberação de substâncias produzidas pelo próprio corpo que têm efeito analgésico.

A técnica, não invasiva e indolor, é indicada para dores neuropáticas, que atingem 7% da população.

Quando se torce o pé, por exemplo, o nervo saudável leva a informação da dor para o cérebro. Na dor neuropática, a lesão é no próprio nervo. A sensação pode ser de queimação, formigamento ou pontadas.

É o caso de dores causadas por mal de Parkinson, esclerose múltipla, fibromialgia, diabetes e quimioterapia, em pacientes com câncer.

De acordo com Daniel Ciampi, neurologista e coordenador do grupo de dor clínica do HC, mais de 500 pacientes já foram submetidos à estimulação.

Menos remédios

Um estudo do grupo, publicado on-line no periódico "Pain", mostrou a eficácia da técnica para dor de fibromialgia. A pesquisa avaliou 40 pessoas por seis meses.

Para Pedro Schestatsky, chefe do comitê europeu de dor da Sociedade Europeia de Neurologia, não há dúvidas sobre os benefícios da estimulação magnética. "Não é mais 'achismo'. Os benefícios já foram provados em estudos muito bem feitos pelo mundo", afirma.

Uma vantagem da técnica, diz ele, é a redução do número de remédios para pacientes que já tomam outras medicações, como diabéticos. A estimulação também pode ajudar quem não tem bons resultados com remédios. Ciampi afirma que 25% dos pacientes com dores crônicas neuropáticas não respondem aos medicamentos (antidepressivos e antiepilépticos).

O neurologista afirma que a técnica, ainda experimental, deve ser aprovada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) ainda neste mês.

Ressalvas

Estudos apontam que a estimulação transcraniana pode causar dor de cabeça e, mais raramente, epilepsia. Segundo Marcos Vidal Dourado, pesquisador do departamento de neurologia da Unifesp, o tratamento pode causar efeitos colaterais temporários, como tontura e visão com pontos luminosos.

"Deve-se aguardar mais estudos para esclarecer as aplicações da técnica e dar mais segurança aos pacientes." Ciampi afirma que 60% dos pacientes têm benefícios.

O auxiliar de expedição Djair Rosendo da Silva, 46, espera estar em breve dentro do grupo beneficiado. Há 22 anos ele sofre com uma dor constante no lado esquerdo do rosto. Começou a fazer a estimulação nesta semana. "Uso medicação há 12 anos, mas não adianta muito", conta."Os médicos já estavam meio perdidos comigo, sem saber o fazer. Agora, espero que melhore."

Estimulação magnética X eletrochoque

Estimulação magnética no cérebro não deve ser confundida com eletrochoque ou eletroconvulsoterapia, ainda que as duas técnicas possam ser usadas para depressão.

A eletroconvulsoterapia é indicada quando o paciente não responde aos remédios ou se a depressão é severa. Nessa técnica, a pessoa recebe anestesia geral. Os eletrodos induzem uma corrente elétrica no cérebro que provoca a convulsão, alterando os níveis de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina.

Já a estimulação magnética é indolor e não requer anestesia. O paciente fica acordado durante a sessão. Segundo o neurologista Pedro Schestatsky, a estimulação magnética "nasceu" para tratar depressão, mas o eletrochoque acabou sendo mais usado para esse fim.

Para Marcos Vidal Dourado, pesquisador da Unifesp, a eletroconvulsoterapia tem efeito antidepressivo mais eficiente, apesar de efeitos cognitivos indesejáveis, como perda de memória. Já Schestatsky diz que as duas têm a mesma eficácia.

Voltar

Galeria